Lenda sobre túneis de Ibirubá perto de ser desvendada

Após seis décadas de  rumores  sobre a existência de passagens subterrâneas na cidade, prefeitura vai escavar pontos apontados por geólogos

Um mistério que aguça a imaginação dos moradores de Ibirubá está próximo de ter um desfecho. Há pelo menos seis décadas, corre pela cidade histórias sobre a existência de túneis subterrâneos que teriam sido utilizados para esconder nazistas de passagem rumo à Argentina, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Após a repercussão causada por notícias divulgadas nas últimas semanas, a prefeitura decidiu investigar a veracidade das narrativas. Se o tempo colaborar, a operação será realizada na próxima quinta-feira, dia 19 de setembro. As máquinas da Secretaria de Obras deverão abrir as ruas onde geólogos recentemente encontraram anomalias no solo. Os pontos a serem escavados estão nas proximidades da Rua Getúlio Vargas esquina com a Flores da Cunha. Caso haja mesmo tais passagens, há o interesse, por parte do poder público, de investir em turismo, de acordo com o prefeito Abel Grave.

Ao falar dos túneis, um clima de apreensão se estabelece no ar. O assunto está longe de ser unanimidade entre os moradores. Há quem garanta que a história não passa de lenda urbana. “Onde eles teriam escondido tanta terra?” questionam. Outros juram que existam tais passagens subterrâneas, inclusive que estão desenhadas em mapas. Relatam terem enxergado indícios em porões ou alçapões de algumas casas da área central. “Os túneis são verdadeiros. Talvez não em toda cidade, mas ligando uma casa na outra ou locais que funcionavam como esconderijo”.

Todos têm opinião formada sobre o tema, mas são poucos os que aceitam dar declarações e se identificar. Sem o risco de exposição, porém, abrem o jogo e até citam nomes. A imaginação corre solta e as narrativas alcançam desde perseguições nazistas até experimentos médicos com grávidas e recém-nascidos. Fala-se sobre o caso de uma empregada doméstica que teria presenciado o esconderijo de alemães refugiados da guerra. “Ela contava que a patroa mandava levar comida para as visitas, que estavam no porão”. Nesta mesma casa, o interlocutor afirma que viu um alçapão que dava para o subterrâneo. Porém, não sabe o que havia lá porque não fez menção e também não foi convidado a entrar. Em outra residência, especula-se a existência de um túnel porque, certa vez, o proprietário supostamente alugou o imóvel com exceção de um dos quartos. “Ele disse: eu alugo, não tem problema, menos aquele quarto”.

Estudos

Não é incomum que os entrevistados misturem diversas histórias ao falar do tema. Há até quem faça relação com dois casos de pessoas desaparecidas na cidade.

No ano passado, dois professores do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Maria Luiza Correa da Camara Rosa e Eduardo Barboza, estiveram na cidade para fazer uma análise indireta do subsolo com um aparelho chamado georadar. Maria Luiza explica que a ferramenta realiza uma espécie de tomografia ou raio-X. Porém, não é possível afirmar, com esta análise, a existência de túneis.

Na ocasião, o que os geólogos encontraram foram algumas descontinuidades, que poderiam ser interpretadas como vazios subterrâneos. Mas essa anomalia também não garante que haja um buraco, já que poderia ser um material diferente ou um depósito de lixo, por exemplo. Conforme a geóloga, a única forma de comprovar é fazendo uma investigação direta, ou seja, perfurando o solo no ponto onde o aparelho acusou a anomalia.


Investigação jornalística

Os geólogos foram procurados pelo jornalista Clóvis Messerschmidt, que investiga o caso há anos. Ele afirma ter colhido testemunhos que apontam para a utilização de túneis por nazistas, para contrabando e como abrigo para colaboradores de Adolf Hitler. “A construção dos túneis começou bem antes da Segunda Guerra Mundial, quando famílias da região construíram abrigos para se proteger dos bandoleiros que saqueavam casas e sítios na região. Depois, aos poucos, a estrutura foi sendo ampliada, tendo ainda várias testemunhas oculares que eu consegui entrevistar”, explica.

Em agosto, uma empresa foi contratada para realizar perfurações em dois pontos onde os geólogos encontraram as anomalias. Em um deles, não foi encontrado nada. Porém, na segunda perfuração, uma parede de concreto foi encontrada a aproximadamente quatro metros abaixo do solo. Conforme Messerschmidt, que comandou as escavações, funcionários ligados a redes de telefonia, água e esgoto foram contatados e informaram que os trabalhos, naquele local, sempre foram realizados em no máximo dois metros de profundidade.

Ameaças

Em virtude da investigação, Clóvis disse ter sofrido ameaças nos últimos meses. “Um cidadão se aproximou e, em tom de ameaça, me coagiu a parar imediatamente, para que não sofresse represálias. Foi então que, infelizmente, decidi interromper as perfurações, mantendo apenas os dois primeiros buracos. Não foi a primeira vez que sofri ameaças. Meses atrás, recebi uma carta anônima contra mim e minha família, dizendo para cessar com as investigações sobre os túneis, me obrigando a registrar um boletim de ocorrência”, relatou.


Expectativa

A expectativa de Clóvis é pelo prosseguimento dos trabalhos, já vislumbrando um registro da pesquisa no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o início do projeto turístico ‘Ibirubá: Cidade dos Túneis’. O Município também considera a hipótese, em caso de confirmada a existência dos túneis. “Estamos fazendo um processo de abertura de forma equilibrada. O município não tem nada de contrariedade em buscar essa informação, até porque pode ser algo que se relacione ao turismo”, garante o prefeito. Por enquanto, resta aguardar as escavações, para esclarecer se a história é ou não apenas uma lenda urbana. Em caso negativo, pode representar o início de um processo de investigação histórica.




Lenda sobre túneis de Ibirubá perto de ser desvendada
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